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[CORREIO BRAZILIENSE] Borderline: tese relaciona dependência afetiva a vícios em drogas e jogos

Algumas pessoas são dependentes de álcool e drogas. Outras, de jogo. Há, também, aquelas cujo vício são os relacionamentos. Tachadas, muitas vezes, de destrutivas, mimadas, manipuladoras e carentes, elas sofrem tanto quanto as que não conseguem viver sem bebida, cocaína ou baralhos. Contudo, geralmente, são incompreendidas. Ao observar a forma em que os adictos emocionais são tratados mesmo entre profissionais da saúde mental, o psicólogo e psicanalista Marcelo Soares Cruz resolveu investigá-los mais a fundo. Da prática clínica, surgiu uma ideia que acabou se transformando em tese de doutorado, defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o especialista, o distúrbio está diretamente associado a um outro sério problema psíquico: o transtorno borderline.

“Estou envolvido com o tratamento dessas pessoas desde o início da graduação. Soava injusto para mim o sofrimento dos pacientes, o olhar voltado a eles, de muita destrutividade. Daí, surgiu a vontade de entender por que eles ficavam assim”, explica o psicanalista. “O principal que tento propor é que o paciente borderline padece de uma condição de adição do outro, da mesma forma como existe a dependência de uma droga. É como se ele tivesse um desespero pelo outro”, explica. Segundo Cruz, o objeto do vício pode ser o parceiro, a mãe, o pai, um amigo ou mesmo um desconhecido. E essa fixação nada tem a ver com amor ou desejo sexual. Trata-se, na verdade, da tentativa de preencher um vazio. “O outro é visto como uma tábua de salvação.”

 

De acordo com o psicanalista, várias teorias tentam explicar essa situação. Do ponto de vista da psicanálise, a raiz do problema está nos primeiros anos de vida, principalmente na fase em que o bebê é completamente dependente dos pais. Em situações de abandono ou indisponibilidade do cuidador, a criança precisa antecipar um processo para o qual não está preparada, o da independência. Daí, surge o trauma. “O que sobra é uma angústia de perda. Como se o outro sempre fosse desaparecer. Como se meu eu estivesse ameaçado pela ausência. É uma questão de sobrevivência”, observa Cruz.

 

Às vezes, perdas posteriores podem desencadear a mesma reação, explica a psicanalista Lygia Vampré Humberg, autora do livro Relacionamentos Adictivos: vício e dependência do outro. “Essas falhas podem acontecer mesmo em uma fase mais madura, como em idosos que trabalhavam e se aposentam e também que perdem muitas pessoas ao longo da vida”, exemplifica.

 

Ao ter contato com inúmeros casos de pacientes adictos em relacionamentos e com transtorno borderline, Marcelo Soares Cruz percebeu que as coincidências entre um e outro distúrbio não eram poucas. Pessoas fronteiriças (borderline) são aquelas que estão sempre às voltas com o sentimento de solidão, têm medo de abandono, sentem irritabilidade/raiva/desespero/pânico, sofrem de alterações de humor ao longo do dia, são impulsivas (consumo exagerado de álcool/drogas, envolvimento com jogo de azar, gasto incontrolado de dinheiro) e têm baixa autoestima. Nos adictos, destacam-se, principalmente, as intensas relações de dependência do outro e a sensação perene de vazio existencial (leia depoimento).

 

Para ele, o principal achado da tese é apontar que existe esperança para esses pacientes. “São pessoas que criam contatos turbulentos, agridem, causam situações constrangedoras e, por isso, parecem fadadas à solidão, porque fazem exigências descabidas dos outros, exigem uma correspondência que nem sempre existe. Elas vivem numa montanha-russa emocional, onde idealizam o outro ou o demonizam”, reconhece. “Muitas portas se batem na cara delas, mas é importante que elas saibam que podem ser cuidadas, o tratamento pode salvar a vida dessas pessoas”, diz.

 

Terapia 

 

Como não se trata de uma patologia psiquiátrica, como é a doença bipolar, que tem causa biológica, o borderline não é tratado com medicação, mas com terapia. “Oferecer uma psicoterapia, fornecer uma experiência de constância, preenche esse vazio”, diz o psicanalista. Ele ressalta, porém, que não há a substituição de uma adicção por outra. “O processo psicanalítico não escraviza ninguém. Para haver a mudança, talvez seja necessário viver um período transitório de dependência (do tratamento), para que a pessoa se liberte”, diz. A psicanalista Cristiane M. Maluf Martin, que é palestrante de comportamento humano, dependência química e codependência, afirma que, às vezes, a intervenção psiquiátrica pode ser importante para conter a ansiedade associada. “Dependendo do grau, a medicação pode ser necessária com a psicoterapia. Até porque muitos pacientes borderline podem tentar suicídio”, adverte.

 

A psicanalista Lygia Vampré Humberg conta que, em muitos casos, os dois lados de uma relação podem ser considerados adictos. “Quando isso acontece em um casal, o problema é dos dois. Um alimenta a necessidade do outro, um só consegue estar forte porque o outro está fraco”, diz. De acordo com ela, as pessoas que têm relacionamentos adictivos se queixam de serem maltratadas, mas não conseguem largar o parceiro. “De maneira inconsciente, essa pessoa fez a escolha certa, porque, para ela, o certo é aquilo. O jeito certo de tratar esses relacionamentos é tratar os dois”, destaca.  No caso de violência doméstica, Humberg ressalta que, se a mulher não fizer um tratamento, vai acabar encontrando outra pessoa igual à abusadora. “É o famoso dedo podre”, concorda Martin. “Essas pessoas tendem a repetir relacionamentos. Mesmo quando conscientizadas disso, não conseguem parar”, afirma.

 

 

Fonte: Correio Braziliense



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